Diferente de todos os outros anos, essa data não me causa tanta dor e sim saudades.
Saudades de tudo o que vivemos, dos 9 anos mais felizes da minha vida que passei ao lado dele, das brincadeiras e do último ano em que passamos juntos, eu e ele morando sozinhos em uma casa onde a ordem era ser feliz.
Meu pai me ensinou que eu devia ser feliz, que eu devia aproveitar a vida pois ela é muito curta e realmente, só há uma chance prá viver (já diria uma banda ae).
Os médicos o haviam privado de fazer uma série de coisas e ele escondeu isso da gente, pois queria viver o tempo que teria disponível. E assim ele se foi, aos 35 anos, num dia qualquer sem ao menos dizer adeus!!! (ai Jesus, tudo acaba virando música por aqui, rsss).
A 3 meses atrás meu tio também sofreu um infarto, assim como seu irmão (meu pai). Mais dessa vez houve tempo de ser socorrido, tratado, levado aos melhores hospitais de São Paulo onde ele ficou internado, passou por uma cirurgia muito séria no coração e teve alta.
Eu nunca tive uma relação muito próxima com esse meu tio, um rapaz fechado, na dele, reservado, às vezes até um pouco arrogante... Mais não sei, no fundo deveria ser a personalidade dele, e essa distância não era arrogância e sim timidez ou falta de jeito de lidar com as pessoas. Ele não tinha filhos e por isso nunca soube muito como brincar com a gente.
O que me deixava encucada era a semelhança que ele tinha com o meu pai. Era olhar prá ele e enxergar o meu velho. As mãos, o rosto, a voz, tudo... Exceto a personalidade.
Pois bem... Quando eu soube que meu tio teve alta e voltaria prá casa, eu, caminhando até a minha aula de especialização, pensei:
Vou ligar prá ele...
Tentei ligar, mais eu estava sem crédito. Aí pensei novamente:
Amanhã eu ligo, ele vai estar na casa da minha vó, tranqüilo e recuperado...
Eu tinha me decidido que teria outro tipo de relacionamento com meu tio, que iria partir de mim a aproximação. Eu queria lhe dizer o quanto a presença dele me fazia bem e o quanto eu sempre quis dar-lhe um abraço, pois de alguma forma ele me trazia de volta a figura do meu pai... Estava tudo esquematizado na minha cabeça, nós teríamos uma nova chance!!!
Qual não foi minha surpresa ao chegar em casa, saindo da especialização, meu telefone tocar e a notícia: Meu tio faleceu!!
Como assim faleceu? Ele voltaria embora no dia seguinte e eu tinha muito o que conversar com ele.
E novamente a vida me ensina, da pior forma que: “Os dias correm e somem e como o tempo não vão voltar... Só há uma chance prá viver...” (ai, essa música não me larga...)
Mais não era sobre essa música que eu queria falar e sim sobre outra.
Já no velório do meu tio, uma música veio a minha cabeça. E, incrivelmente, eu estava sozinha naquela sala, eu e um corpo, desfalecido que em muito me lembrava o meu pai. E sem pensar, comecei a cantar essa música, sozinha naquela sala fria:
Aqui dentro seu silêncio grita
e não há como explicar.
A vida se desfaz em segundos
as flores que deixo pra lembrar.
Pra dizer o que se sente é preciso demonstrar...
Agora eu vejo tudo claro
por que precisava acontecer
Em linhas tortas Ele escreve
a vida tem que continuar
Pra dizer o que se sente é preciso demonstrar...
Ainda sinto sua falta aqui,
seu retrato na estante...
Só amor é luz
e sempre conduz
só o amor suporta a dor...
Há um segredo entre eu e você
que não deixa o amor morrer
Nem o tempo pode esconder
(Retrato – Beatrix)
e não há como explicar.
A vida se desfaz em segundos
as flores que deixo pra lembrar.
Pra dizer o que se sente é preciso demonstrar...
Agora eu vejo tudo claro
por que precisava acontecer
Em linhas tortas Ele escreve
a vida tem que continuar
Pra dizer o que se sente é preciso demonstrar...
Ainda sinto sua falta aqui,
seu retrato na estante...
Só amor é luz
e sempre conduz
só o amor suporta a dor...
Há um segredo entre eu e você
que não deixa o amor morrer
Nem o tempo pode esconder
(Retrato – Beatrix)
E novamente essa música foi a cura prá minha dor. Os versos foram saindo, recitados, e o Senhor me mostrou que realmente precisava acontecer...
Pai... Tio... Sentirei a falta de vocês, eternamente. Mais o meu amor sempre foi real e eu sei que vocês se foram sabendo disso...