terça-feira, 10 de agosto de 2010

Só o amor suporta a dor!!!

Hoje faz 17 anos que meu pai se foi.
Diferente de todos os outros anos, essa data não me causa tanta dor e sim saudades.
Saudades de tudo o que vivemos, dos 9 anos mais felizes da minha vida que passei ao lado dele, das brincadeiras e do último ano em que passamos juntos, eu e ele morando sozinhos em uma casa onde a ordem era ser feliz.
Meu pai me ensinou que eu devia ser feliz, que eu devia aproveitar a vida pois ela é muito curta e realmente, só há uma chance prá viver (já diria uma banda ae).
Os médicos o haviam privado de fazer uma série de coisas e ele escondeu isso da gente, pois queria viver o tempo que teria disponível. E assim ele se foi, aos 35 anos, num dia qualquer sem ao menos dizer adeus!!! (ai Jesus, tudo acaba virando música por aqui, rsss).

A 3 meses atrás meu tio também sofreu um infarto, assim como seu irmão (meu pai). Mais dessa vez houve tempo de ser socorrido, tratado, levado aos melhores hospitais de São Paulo onde ele ficou internado, passou por uma cirurgia muito séria no coração e teve alta.
Eu nunca tive uma relação muito próxima com esse meu tio, um rapaz fechado, na dele, reservado, às vezes até um pouco arrogante... Mais não sei, no fundo deveria ser a personalidade dele, e essa distância não era arrogância e sim timidez ou falta de jeito de lidar com as pessoas. Ele não tinha filhos e por isso nunca soube muito como brincar com a gente.
O que me deixava encucada era a semelhança que ele tinha com o meu pai. Era olhar prá ele e enxergar o meu velho. As mãos, o rosto, a voz, tudo... Exceto a personalidade.

Pois bem... Quando eu soube que meu tio teve alta e voltaria prá casa, eu, caminhando até a minha aula de especialização, pensei: 
Vou ligar prá ele...
Tentei ligar, mais eu estava sem crédito. Aí pensei novamente:  
Amanhã eu ligo, ele vai estar na casa da minha vó, tranqüilo e recuperado...

Eu tinha me decidido que teria outro tipo de relacionamento com meu tio, que iria partir de mim a aproximação. Eu queria lhe dizer o quanto a presença dele me fazia bem e o quanto eu sempre quis dar-lhe um abraço, pois de alguma forma ele me trazia de volta a figura do meu pai... Estava tudo esquematizado na minha cabeça, nós teríamos uma nova chance!!!
Qual não foi minha surpresa ao chegar em casa, saindo da especialização, meu telefone tocar e a notícia: Meu tio faleceu!!
Como assim faleceu? Ele voltaria embora no dia seguinte e eu tinha muito o que conversar com ele.

E novamente a vida me ensina, da pior forma que: “Os dias correm e somem e como o tempo não vão voltar... Só há uma chance prá viver...” (ai, essa música não me larga...)
Mais não era sobre essa música que eu queria falar e sim sobre outra.

Já no velório do meu tio, uma música veio a minha cabeça. E, incrivelmente, eu estava sozinha naquela sala, eu e um corpo, desfalecido que em muito me lembrava o meu pai. E sem pensar, comecei a cantar essa música, sozinha naquela sala fria:

Aqui dentro seu silêncio grita
e não há como explicar.
A vida se desfaz em segundos
as flores que deixo pra lembrar.

Pra dizer o que se sente é preciso demonstrar...

Agora eu vejo tudo claro
por que precisava acontecer
Em linhas tortas Ele escreve
a vida tem que continuar

Pra dizer o que se sente é preciso demonstrar...

Ainda sinto sua falta aqui,
seu retrato na estante...
Só amor é luz
e sempre conduz
só o amor suporta a dor...

Há um segredo entre eu e você
que não deixa o amor morrer
Nem o tempo pode esconder
(Retrato – Beatrix)

E novamente essa música foi a cura prá minha dor. Os versos foram saindo, recitados, e o Senhor me mostrou que realmente precisava acontecer...

Pai... Tio... Sentirei a falta de vocês, eternamente. Mais o meu amor sempre foi real e eu sei que vocês se foram sabendo disso...

terça-feira, 30 de março de 2010

"Você não sabe o quanto eu caminhei prá chegar até aqui... Percorri milhas e milhas antes de dormir, eu nem cochilei. Os mais belos montes escalei. Nas noites escuras de frio chorei..."

Já diria Pe.Fábio de Mello "Esse jeito esquisito que Jesus tinha de preferir os piores..."

É assim que eu me sinto, a preferida por um Deus que não escolhe as pessoas certas, mais dá capacidade aos seus escolhidos...

Tracei uma meta em minha vida e mesmo não vendo possibilidade alguma de alcançar, eu fui atrás.
E assim é a vida, feita de sonhos e realizações.

Olhando prá trás eu vejo uma infância humilde e de poucas oportunidades. Vejo...

... noites escuras por falta de eletricidade...
... a falta da TV e um rádio a pilhas, daquelas pilhas enormes onde ouvíamos orgulhosos as nossas fitas K7...
... o cheiro ardido do querosene à noite que iluminava nossa casa...
... o terrível banho de bacia durante o inverno...
... as crises de asma seguidas de fugas noturnas para a cidade atrás de médico...
... o medo que eu tinha da tal onça me pegar na carroceria do jeep do homem que nos dava carona até o médico...
... o adoecer no sítio do vovô durante o natal e o cheiro de farinha do "remédio" que ele fazia prá me curar...
... a maior subida do mundo que tínhamos que percorrer prá sair da casa do vô e chegarmos até a estrada...
... o gosto amargo de todas as "poções mágicas" prá curar bronquite que o mundo já teve notícia...
... a pré-escola que eu odiava por já ter aprendido a ler por conta própria...
... os 16 km que caminhávamos, dia sim, dia não, prá acompanhar minha mãe até o local onde ela iria trabalhar...
... o dia em que eu e a hermana quase tacamos fogo na casa tentando fazer um virado de feijão...
... a felicidade por ter ganho um "walkman" amarelo da minha mãe...
... a noite em que pisei em um sapo na saída do colégio e me rendeu um trauma eterno...
... o dia em que o rio Catas Altas quase não me devolveu...
... as datas comemorativas na escola onde sempre aprontávamos alguma...
... o tombo que eu caí do Pingo, o cavalo mais doido que já se teve notícia...
... as casinhas construídas para brincar no meio da mata...
... os jogos no campinho atrás de casa...
... as gostosas tardes de verão no rio, que quase sempre me eram privadas...
... as noites que mamãe passou em claro, sentada na beira da minha cama...
... os pessegueiros, as pitangueiras, as goiabeiras, as jabuticabeiras e outras árvores frutíferas onde nos esbaldávamos...
... o dia em que papai se despediu, prometendo à Pitú que voltava, mais não voltou...

E se encerrou 2009, eu sei, há algum tempo já, mais nunca é tarde prá relembrar...
Um ano de conquistas, realizações, alegrias e tristezas.
 
Um ano de Contrários...

"Só quem já provou a dor
Quem sofreu, se amargurou
Viu a cruz e a vida em tons reais.
Quem no certo procurou
Mas no errado se perdeu
Precisou saber recomeçar.

Só quem já perdeu na vida sabe o que é ganhar
Porque encontrou na derrota o motivo para lutar
E assim viu no outono a primavera
Descobriu que é no conflito que a vida faz crescer..."

Ouvindo: Contrários - Pe.Fábio de Mello
Foto: Minha casinha em Morro Agudo (by Jaque)